quarta-feira, 4 de abril de 2012

A prostituição na Biblia

A prostituição atenta contra o ser humano, imagem de Deus (Gn 1,27). Jesus viu as prostitutas como pessoas conscientes de seu limite e necessidade, e colcou-as como modelo por empreender um caminho de libertação.

Na maior parte das referências à palavra “prostituta” e “prostituição” no Antigo Testamento (AT) encontramos a raiz hebraica znh, ainda que derivadas desta também indicam relações sexuais antes e fora do casamento. Portanto, o termo habitual que designa a prostituta profissional, que aceita um pagamento, é zônâ, embora também possa aplicar-se à mulher que tem relações sexuais antes do casamento (cf. Lv 21,7.14). Não existe na Bíblia, exceto uma referência em Dt 23,17, evidência de prostituição masculina. As prostitutas eram encontradas em lugares públicos como caminhos (Gn 38,14; Jr 3,2; Ez 16,25; Prov 7,11-12) ou lugares de peregrinação (Os 4,13-14), mas também em casas (cf. Jr 5,7).
A atitude da sociedade israelita em relação à prostituição sempre foi negativa, apesar de ter sido tolerada, apesar da legislação do Pentateuco ter sido destinada a proscrever esta instituição (Lv 19,29; Dt 23,17). Embora os sacerdotes não pudessem se casar com prostitutas e que suas filhas poderiam ser queimadas caso se dedicassem à prostituição (Lv 21,7.9.14), estas exigências não se aplicavam ao israelita laico, que podia se casar com uma antiga prostituta.
No Antigo Testamento está o caso de duas prostitutas que têm acesso ao rei Salomão para obter justiça (1 Re 3,16) e a ausência de qualquer juízo moral contra Tamar, que se fez passar por prostituta para conseguir descendência de seu sogro (Gn 38); nem contra Rahab, a prostituta de Jericó que ajuda os espiões de Israel (Jos 2,6); nem contra Sansão, que freqüentava uma prostituta em Gaza (Jue 16,1). A tolerância vai acompanhada de grande desprezo. Tratar uma mulher como prostituta, como se vê na história de Dina, filha de Jacó, supunha uma grave ofensa à honra familiar, tanto que seus irmãos Simeão e Levi justificaram vingar-se com a morte de muitos homens (Gn 34).
A comparação da legislação israelita com a de outras culturas do Oriente Médio ajuda a iluminar seu próprio caráter. Na Mesopotâmia também encontramos o binômio tolerância-desprezo, mas os direitos e obrigações das prostitutas se mencionam em códigos legais. Este reconhecimento legal contrasta com a proibição de iure em Israel, em qualquer situação de fato. Lv 19,29 proibe que um israelita venda sua filha uma prostituta, provavelmente em relação com a prática de vender os próprios filhos como escravos por causa de dívidas (cf. Ex 21,7; Código de Hamurabi [CH] 117). A proibição do Deuteronômio é absoluta: nenhuma mulher israelita se prostituirá (23,18).
Esta maior intolerância de Israel com a prostituição esteve provavelmente influenciada por diversos fatores. Primeiro, Israel devia aspirar a ser um “povo santo”, e isso inclui um estrito código da moral sexual. Como recolhe no livro de Levítico o “Código da santidade” (Lv 17–26), Deus expressa sua vontade: o povo deve reconhecer a santidade de Deus e imitá-la, com seu marcado caráter ético. A ética sexual bíblica é mais exigente que mesopotâmica. Por exemplo, a lei hitita absolve algum tipo de bestialismo (com um cavalo ou uma mula), enquanto Lv 18,23 e 20,15 16 proíbem qualquer relação sexual com um animal. A lei assíria do Reino Oriente Médio (n. 14) castiga o adúltero somente se ele souber que a mulher é casada, enquanto o AT não faz exceções (Ex 20,14; Lv 18,20; 20,10; Dt 22,22). Israel castiga mais severamente os casos de incesto. Em conjunto, mostram-nos como o Deus de Israel só admite as relações sexuais dentro de circunstâncias precisas, fora das quais caem as atividades de uma prostituta. Segundo, a dificuldade de conhecer o pai dos filhos de uma prostituta gerava problemas numa sociedade na qual a transmissão da propriedade e o status era patrilinear. Na Mesopotâmia existia a possibilidade da adoção (CH 185 187; Lei assíria do Reino Oriente Médio, 28), não era a mesma coisa em Israel. A adoção não é mencionada nas leis da Bíblia. Uma sociedade na qual predominava a linha paterna logicamente não agradaria a a mãe e os filhos de pai desconhecido. Não receberiam herança nem sobrenome. Além disso, não conhecer o pai poderia levar ao incesto sem querer, outra prática reprovada pelo Senhor (Lv 18,20).
Nós encontramos um terceiro fator nos profetas. A metáfora da apostasia como prostituição vinculava a ruptura do vínculo exclusivo com Deus, a aliança do Sinai, com a ruptura do vínculo mais exclusivo conhecido na sociedade israelita, o casamento (Jer 2,20.25; 3,1-13; Ez 16; 23; Vos 1–3). A apostasia parecia totalmente inaceitável devido à sua associação com o adultério e a promiscuidade e, ao contrário (inversa), a promiscuidade sexual resultava odiosa por seu parentesco com a infidelidade religiosa.
O uso metafórico de “prostituição” estende-se para criticar cidades dentro da convenção de personificá-las como mulheres. A cidade de Tiro, na Fenícia é denominada de “prostituta” e seus benefícios comerciais recebem o apelativo de “salário de prostituta” (cf. Is 23,15-18), refletindo a atitude negativa de uma nação agrícola como Israel diante do comércio internacional. Ninive, capital da Assíria, é uma “prostituta” que seduz as nações e as conduz a sua decadência (Nah 3,4-7). Jerusalém também se converteu em uma meretriz segundo Is 1,21, ao encher-se de imoralidade e injustiça. Por último, Ezequiel chega também a denominar como “prostituição” as alianças políticas de Israel com outras nações (16,26-29) por ser uma afronta ao Senhor. No entanto, nem tudo é metáfora para os profetas. Amós apresenta a prostituição de uma esposa como um castigo terrível só comparável à morte de filhos e filhas, a perda da terra ou partir ao exílio (7,17).
É frequente encontrar na literatura o uso a referência à existência em Israel da prostituição “sagrada” ou “ritual”. Assume-se que textos como 1 Sm 2,22; 2 Re 23,7.14; 2 Cr 15,16; Ez 8,14; Vos 4,13 refletem rituais israelitas paganizados, sob influência cananea, nos quais se legitimavam as relações sexuais com mulheres e/ou varões vinculados aos diferentes lugares de culto como uma maneira de promover a fecundidade e a fertilidade. Dentro da concepção da mitologia cananea, segundo a qual os processos da natureza eram o resultado da relação sexual entre deuses e deusas, a prostituição ritual funcionaria como uma forma de magia que faria que os deuses empreendessem a mesma atividade, o que traria abundantes colheitas e aumento do gado.
Não se pode negar que durante certos períodos existiram prostitutas em Israel, a serviço do templo, denominadas qedeshim, embora, provavelmente, desempenhassem também outras funções. Segundo 2 Re 23,7 dispunham de lugares especiais no templo de Jerusalém, algo intolerável para os reformadores do tempo do rei Josias que as eliminaram no final do século VII a.C., mas que aparentemente eram aceitas até então. No entanto, sua atividade não tinha nenhum tipo de conexão com um hipotético ritual de fecundidade.
Uma série de textos testemunha que o cumprimento de algum voto ou promessa parece ser um dos motivos para praticar a prostituição ocasional. Os votos eram frequentes em Israel, na antiguidade, podendo ser realizados por homens e mulheres (cf. Nm 6,2; 1 Sm 2,11; Prov 31,2). No entanto, a dificuldade podia surgir na hora de cumpri-los, já que as esposas eram economicamente dependentes de seus maridos, assim como as filhas solteiras ou só prometidas de seu pai. Por isso o homem, responsável pelo pagamento nesses casos, tinha a capacidade de liberá-las de seus votos, mas só no momento em que tomasse conhecimento deles. Se não fizessem, deveriam cumpri-los, como sempre viúvas e divorciadas que eram consideradas independentes (cf. Nm 30). Portanto, se o marido desconhecesse o voto ou não estivesse de acordo, a mulher se via numa situação complicada. Para não deixar o voto sem cumprir, a prostituição poderia ser a única solução disponível, numa situação similar à descrita em Prov 7. Qualquer coisa antes de retratar-se de sua promessa, considerada uma ofensa muito séria (Dt 23,21; Ecl 5,4 5).
O texto de Dt 23,17-18 proíbe, colocando em paralelo serviços sexuais de homens e mulheres nos templos e o costume de pagar votos com dinheiro, obtido através da prostituição. Ambos coincidem no recurso à prostituição, como meio que traz benefícios ao templo. Este utilizava o dinheiro, entre outras coisas, para produzir imagens dos deuses. Por isso o profeta Miqueas fala dos ídolos de Samaria reunidos “a partir dos lucros de uma prostituta” (Miq 1,7). Dos textos pode-se concluir que existiu em Israel a prostituição nas imediações de santuários e templos, organizada ou aceitada por sua administração e tolerada pela religião oficial até a reforma deuteronomista dos tempos de Josias, mas não como meio para aumentar a fecundidade senão porque beneficiava o lugar de culto.
NO NOVO TESTAMENTO (NT)
O Novo Testamento recusa a prostituição em continuidade com o AT. Jesus Cristo não só ratifica a proibição do adultério (Mc 10,19 par. Mt 19,18; Lc 18,20) senão que a radicaliza falando do adultério que tem lugar no coração do ser humano (Mt 5,27-28). O ensino do evangelho apresenta o casamento como o âmbito onde se unem a vida do homem com a da mulher e se tornam uma só carne (Mc 10,1-12 e par.). A rejeição da fornicação também se vê no Livro dos Atos dos apóstolos (15,20.29).
Por sua vez, São Paulo escreve à comunidade de Corinto (cf. 1 Co 6,12-20) que proclama que “tudo está permitido”, mas que no entanto nem tudo cai bem e que não se deve deixar dominar por nada. A propósito da fornicação e de ter relações com uma prostituta o princípio básico é o enunciado antes na mesma carta: “tudo é seu, mas você é de Cristo” (1 Co 3,21-23). Como a relação com uma prostituta é uma relação entre pessoas, implica o Senhor a quem pertenço. Minha pertenencia ao Senhor, à comunidade, limita minha liberdade. Não pertenço a mim mesmo. Ter relações sexuais fora do casamento significa tornar-se um só com essa pessoa (em linha com Gn 2,24), rejeitando a relação de pertenencia a Cristo.
Fornicar é pecar contra o próprio corpo, causar danos a si mesmo, afirma Paulo, que não obstante, é preciso dizer isso, não se preocupa pelo corpo da prostituta e pelo abuso exercido sobre ele. Em nosso corpo habita o Espírito Santo recebido de Deus que define nossa existência corporal como existência diante de Deus. Em e com o corpo servimos a Deus.
Se procuramos no NT mulheres apresentadas como prostitutas, um nome que espontaneamente vem à mente é o de Maria Madalena, que a imaginação popular e a história da arte descreveram e apresentam como antiga prostituta. No entanto, esta atribuição, por mais habitual que seja, contradiz os dados do NT.
Os evangelhos afirmam muitas coisas de Maria Madalena mas nunca sua condição de prostituta. Aparece como seguidora de Jesus (Mc 15,41; Lc 8,2), testemunha da crucificação (Mt 27,56; Mc 15,40; Jn 19,25, cf. Lc 23,49), do túmulo vazio e do anúncio da ressurreição (Mt 28,1ss; Mc 16,1-8; Lc 24,1-10; Jn 20,1-2), e como destinatária da primeira aparição de Jesus ressuscitado (Mt 28,9; Jn 20,11-18). Além disso, São Lucas e o apêndice do Evangelho de São Marcos assinalam que dela sairam sete demônios (Lc 8,1-2; Mc 16,9). Esse dado supõe um antigo estado de sofrimento, mas não é necessário para concluir que tenha sido prostituta.
A confusão pode ter sido originada, ao cruzar e relacionar alguns diferentes textos, sem base. Por exemplo, identificar a pecadora pública anônima que lava com suas lágrimas os pés de Jesus (Lc 7,36-50) com Maria Madalena, descrita junto a outras mulheres a renglón seguido em 8,1-3 embora o texto não assinale nenhuma conexão, nem sequer a certeza de considerar a primeira como prostituta. Também chamar de María a mulher que lava os pés de Jesus em Lc 7 porque assim se identifica a mulher, irmã de Lázaro, que unge com perfume os pés de Jesus no quarto evangelho (Jn 12,1ss), sem considerar que se trata de dois episódios diferentes. Obrigados também a descartar como prostituta a mulher de Lc 7,36-50 que só aparece descrita como que “pecadora na cidade”, devemos concluir que nenhum evangelho nos narra um encontro de Jesus com uma prostituta.
São Mateus inclui duas mulheres vinculadas com a prostituição na genealogia de Jesus. Se a presença de cinco num documento desse gênero é em si atraente no contexto de uma sociedade patrilineal, esta relação de duas delas com a prostituição que não se explicita no Evangelho é muito mais, resultando bem conhecida para os destinatários deste.
A primeira é Tamar, nora de Judá (Mt 1,3). Este que lhe dera por marido seu primeiro filho e depois de sua morte, o segundo que também faleceu sem descendência, já não queria dar-lhe o terceiro por temor a perdê-lo. Tamar se disfarçou de prostituta para poder ter um filho do próprio Judá e conseguiu enganá-lo (cf. Gn 38). A Bíblia reconhece sua inteligência e seu valor, seu plano para superar a afronta feita por seu sogro.
A segunda é Rahab, prostituta de Jericó (Mt 1,5), que oculta os espiões de Josué enviados para explorar a cidade, gesto que lhe vale ser salva com toda sua família, quando os israelitas conquistam a cidade (Jos 2; 6,25). O Novo Testamento louva tanto sua fé (Heb 11,31) como suas obras (Sant 2,25), colocando Rahab numa rara posição de privilégio como figura modelo no conjunto da Escritura. Tamar e Rahab fazem parte da genealogia de Jesus, o filho de Deus.
Segundo Mateus, durante sua vida pública e no contexto de um ensino no templo, Jesus evoca as prostitutas como modelo de arrependimento, em contraste com a atitude dos líderes religiosos (sumos sacerdotes e anciões): elas sim acreditaram em João Batista. Arrecadadores e prostitutas precedem os líderes no caminho do Reino (21,31-32). Surpreende que Jesus cite como exemplo um grupo desprezado moral e religiosamente, e que o faça precisamente diante dos líderes religiosos. Jesus uma vez mais dá mostras da inversão de de valores que propõe, liberando os oprimidos (Lc 4,16ss; Hch 10,38).
Se a inclusão de prostitutas na genealogia de Jesus testemunha a realidade da encarnação do filho de Deus que assume a virtude e o pecado da história da humanidade, descobrindo o valor de cada pessoa, agora Jesus desafia os esquemas de uma sociedade bienpensante pronta a desqualificar e desprezar. Os desprezados e tidos por nada são no entanto os primeiros em caminhar para o Reino e nos mostram desta maneira o caminho, porque, como diz Jesus, acreditaram na mensagem que urgia à conversão, à metanoia, à mudança de mentalidade. Não caem no engano da autosuficiência, conhecedores de seus limites, reconhecem sua necessidade e procuram como colmá-la. São exemplares dentro de sua fragilidade.
Se propomos à Bíblia as perguntas de nosso tempo, no qual as estatísticas nos recordam que cresce a trata e o número de mulheres que se dedicam à prostituição, e somos alertados como esta realidade será a outra cara do mundial de futebol da África do Sul, diante deste problema global que atenta contra a liberdade e a igualdade das pessoas prostituídas, a Bíblia nos recorda que Deus não quer que ninguém tenha que se prostituir.
A prostituição atenta contra o ser humano, imagem de Deus (Gn 1,27). Jesus viu as prostitutas como pessoas conscientes de seu limite e necessidade, e colcou-as como modelo por empreender um caminho de libertação. Esse é o caminho que hoje nos convida a percorrer juntos: liberar aqueles que sofrem a opressão.

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