terça-feira, 3 de abril de 2012

Uma linda e adorável mulher

"Pensava que ser bonita era algo inalcançável para uma mulher comum como eu."

Por Shea M. Gregory


Quando eu era uma menininha, pensava que agente ficava em uma fila no céu para requerer a nossa vida.

Imaginei um anjo grande com imponentes asas me dizendo: “você irá se tornar uma mulher. Muito bem, o que você gostaria de ter? Pernas bonitas? Fama? Dinheiro?

Inocentemente, respondi a ele, “se for possível, senhor, eu queria ter... uma personalidade peculiar”. Então, sem tempo para reconsiderações – zap! – eu nasci e aqui estou.

Uma vez eu perguntei ao meu irmão se ele me achava bonita, ele me olhou por trás da partitura e disse para eu sair. “Darnell, é sério”. Então, comecei a choramingar. “Eu sou bonita?” A única forma de me tirar dali era me respondendo, ele tomou fôlego, olhou nos meus olhos e começou a tocar.
“Seu rosto está bem”, disse enfim. “Você tem uma personalidade única. Você está bem”.

“O que significa isso?”, minha voz cresceu. “O que você está dizendo, é que sou uma gorda que age como uma idiota?”.

“Não foi isso o que eu disse”, falou calmamente e voltou a tocar.

“Não é isso o que você disse? É exatamente isso o que você disse!”, aí eu cuspi nele. “Você disse que nenhum homem vai me querer porque eu sou feia e estúpida. Eu quero ver você jurar então!”

Bem, esta foi minha vida. Eu sempre lutei contra complexos de feiúra e inadequação. Minhas amigas tinham boa aparência, tinham belas pernas, e dentes bonitos. Elas me convidavam para a gente se reunir. Eu me reunia era na bandeja de fruta de Natal. Elas se tornaram rainhas de festa e líderes de torcida, enquanto eu me afundava cada vez mais, sonhando ser modelo, esperando acordar bonita.

Até que um dia conheci Jesus. Uma amiga tinha me convidado para ir à igreja. Enquanto eu cantava em coral com outras pessoas, fui tomada por um sentimento de culpa e indignidade. Como esse Deus sobre quem eu estava cantando podia amar uma gorda feia como eu? Mas durante o culto descobri que Deus verdadeiramente me amava – exatamente como eu sou.

Naquele dia aceitei o amor e o sacrifício de Deus por mim. Por várias vezes tive a certeza de que Ele me amava mais do que eu podia imaginar e que eu era bonita do modo que mais importava – por dentro.

Mas meus sentimentos negativos não desapareceram imediatamente. Às vezes, eles surgiam intensamente, mas eu lutava para expulsá-los, encontrava com as minhas amigas Diana e Leona para almoçar, por exemplo.

Eu tinha trinta e poucos anos, tendo minhas primeiras experiências sexuais, solteira, e doente. Aquele não foi um bom dia. Nós almoçamos num restaurante local e o tema da conversa logo mudou para homem.

“E então, como o Eugenio está?”, perguntou a Diana.

Leona gesticulou a mão. “Oh, por favor, não”, ela respondeu.

“Você não tem mais visto ele?”, perguntei.

“Garota, isso foi há duas semanas”, ela respondeu. “E não estávamos apaixonados, estávamos só nos conhecendo”.

“Oh”, dissemos Diana e eu juntas.

“Não, mesmo.”, enfatizou Leona, e começou a listar os homens que ela conheceu recentemente.

“O que eu queria saber é quando e onde você conheceu esses caras?”, perguntou Diane.

Leona olhou seriamente, como se não estivesse gostando daquilo ali. Eu já estava na borda da minha cadeira, pronta para fazer algumas anotações. Na primeira oportunidade, eu corri pro banheiro e anotei tudo em um papel de banheiro. Ela pegou um pedaço do seu sanduíche e o comeu com concentração.

“Por favor , responda a pergunta”, pensei comigo. Estava segurando minha respiração. Meu pensamento pendia entre a resposta da Leona e o bife no prato. Ela demorou muito. Peguei e coloquei seu prato no outro lado da mesa. “Conta tudo!”, falei.

Leona se irritou como se eu estivesse querendo machucar seus sentimentos, até que ela virou seus olhos. Ela nunca teve aquele olhar antes. Era feio. Meu olhar exalava inveja. Isso expôs meu desespero e meu anseio, sentimentos que toda mulher cristã necessita para crescer. Eu já estava cansada de ser uma pessoa de hábitos estranhos. Eu queria um homem.

“Onde estão os homens? Como arranjar um?”, cochichei.

Leona lambeu os beiços, mas me mantive firme. Sem informação, sem sanduíche.

Eu venci.

“Vocês sabem como isso é”, ela disse, “você sai para a rua e um homem te convida para sair”.

“Hum”, respondi. Obviamente, eu morava no bairro errado. Olhei para Diane. Ela lembrou que estava de boca cheia e fechou.

“Vocês sabem como são essas coisas”, continuou Leona. “Hoje em dia você não pode sair andando por aí que um homem pára pra falar com você”.

“Não, Leona”, disse, “eu não sei como são essas coisas”.

“Ah, vocês sabem sim”, ela insistiu.

Eu reparei em Leona. Ela estava toda bonita da cabeça aos pés. Seus movimentos eram suaves e naturais, sua voz macia e sutil. Seu cabelo estava todo no lugar, e suas roupas caiam muito bem. Eu tentei lembrar a última vez que fui ao salão e pensei no sutiã velho que eu estava usando, preso com um alfinete. Achei muito inadequado.

“Os homens te chamam pra sair toda vez que anda na rua?” perguntei a Diane, enquanto voltávamos pra casa.

“Não”.

“Nem a mim. Você acha que eu deveria mudar de rua?”

Minha amiga me olhou com atenção. Aquele olhar me lembrou muito meu irmão.

Ao nos despedirmos, tive uma idéia. Isso me surgiu do nada, como uma vontade de comer chocolate. Eu corri para casa e entrei no quarto, me despi, e fiquei ali, nua na frente do espelho. Depois do choque inicial, eu examinei meu corpo por cada ângulo que se possa imaginar, procurando encontrar minha melhor parte. “Se eu conseguir acentuar o que tenho de melhor, serei chamada para sair a todo tempo”, pensei comigo. Contudo, finalmente me vesti, prestando um favor à humanidade.

Com a auto-estima abalada, curvei minha cabeça e estava pronta para me jogar na cama em desespero, quando vi minha bíblia perto do travesseiro. Eu abri no Salmo 139, “por modo assombrosamente maravilhoso me formaste”, versículo 14.

“Eu sei Deus, mas...”, comecei a protestar. Depois, as palavras de 1 Samuel 16 me vieram à mente, “O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”.

Fiquei pensativa por alguns momentos, depois, hesitante. Levantei e tornei a me reparar no espelho. “Bem Senhor”, eu disse olhando para o meu nem tão perfeito corpo, aquela ampla imagem, “a tua palavra diz que eu sou especial, então devo ser mesmo”. Fiz uma pequena oração de agradecimento e fui fazer a melhor coisa que poderia fazer naquele momento. Fui fazer compras.

Leona está casada agora. Ela diz que estava simplesmente andando na rua. “Vocês sabem como é o centro da cidade, você passa por uma loja e os rapazes saem, eles te chamam para sair; te chamam para casar. Então, um dia...”

Eu andei por aquela rua centenas de vezes e nenhum dono de loja ou balconista me perguntou alguma coisa, nem mesmo que horas eram. Foi difícil, mas acostumei o meu ser a encarar a realidade. Eles deviam estar ocupados com clientes quando eu passava por lá. Com certeza, eles nunca tinham lido 1 Samuel antes.

Perguntei ao meu irmão recentemente. “Darnell, eu sou bonita?”

Ele sorriu. “Você é uma pérola preciosa, uma linda e adorável mulher”, ele disse.

Você não tem idéia do quanto nós melhoramos nesses anos.


Copyright © 2009 por Christianity Today International

(Traduzido por Yuri Nikolai)

Fonte: Cristianismo Hoje
http://www.cristianismohoje.com.br

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